Daniel Santos' Blog

Periféricos

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Flynne Fisher vive com o irmão, Burton, em uma área rural e desolada dos Estados Unidos, onde os empregos são escassos e muitos sobrevivem na clandestinidade, fazendo impressões ilegais em 3D e jogando videogame por dinheiro. Veterano de guerra, Burton é contratado para atuar como segurança em um jogo virtual, mas um contratempo leva Flynne a assumir o posto do irmão em um dos turnos. Durante sua ronda, acidentalmente, ela testemunha um homicídio que lhe parece bem real, e logo desconfia que o jogo pode ser, na verdade, uma janela para o futuro. Retomando o ambiente futurista e tecnológico de Neuromancer, Periféricos se revela um thriller policial surpreendente, agudo e original, e deixa claro porque William Gibson é um dos mais talentosos e proféticos escritores de nosso tempo.

Período de leitura

Não consigo me lembrar agora qual foi a conversa que ouvi para começar a ler “Periféricos”, de William Gibson. No entanto, eu trabalhei alguns anos com um colega que sempre elogiou o autor da série Neuromancer (a qual eu ainda não li), dizendo o quão visionário e futurista ele é, e, uma vez que notei que se trata de uma história policial e o livro estava sendo ofertado gratuitamente aos assinantes da Amazon Prime, me decidi por ler.

Com a leitura em andamento, me senti meio confuso a princípio. Aparentemente, Gibson gosta de te jogar no universo dele, com seus personagens, termos e invenções, rodeados, é claro, de um linguajar próprio, sem muito preâmbulo ou introdução. Assim, a sensação que tive lendo as primeiras páginas e capítulos, foi a de estar operando um novo dispositivo sem poder contar com manual de instruções.

O livro aborda questões ligadas a viagem no tempo, mas de um jeito todo próprio. Há uma conexão entre duas épocas distintas e uma forma de os personagens em ambas se comunicarem entre si. Um assassinato acontece e ninguém sabe o autor, nem sua motivação. De repente, à medida que as páginas avançam, a gente se acostuma com os termos e com o ambiente, e acompanhar o livro se torna... mais fácil?

Não exatamente.

Gibson realmente escreve ficção científica de uma maneira toda própria... com isso, quero dizer que as páginas de “Periféricos” são recheadas de coisas como tatuagens que se movem, carros feitos de papelão, nano bots e michikoides, espécie de robôs femininas versáteis que aparecem ao longo da história. Lembra do que escrevi acima? Que me senti meio confuso a princípio? Bem... na verdade, a minha confusão não passou com o tempo, exatamente. Eu pude captar a essência da história, o assassinato mencionado, a investigação policial, algum tipo de briga tecnológica e financeira entre grandes corporações... mas esses são os únicos elementos que posso dizer que me foram mais perceptíveis, e ainda assim viajei pra caramba no enredo.

O universo da história é apresentado em dois momentos no tempo. Um desses momentos ocorre por volta de 2030. O outro, por volta de 2100. Não existe viagem no tempo de fato, mas existe comunicação entre presente e futuro através de um servidor, ou servidores especiais (ao menos assim eu entendi). São os dados que viajam no tempo: portanto, nada de De Lorean, ou outra máquina do tempo, nada de portais ou mágica. No lugar disso, aparentemente, apenas pura tecnologia da informaçãoe tem gente que acha que profissional de TI arruma cafeteira, haha 😎

Existem invenções demais, desde carros de papelão (oi?) até bebidas e armas diferentes. Existem homúnculos e, é claro, existem periféricos, que dão nome ao romance de Gibson. Estes periféricos são robôs autônomos, mas que podem ser ocupados por seres humanos. É assim que Flynne Fisher interage com o mundo quando ela viaja ao futuro. Eu entendo que tem gente que gosta de William Gibson justamente por essa avalanche de invenções futurísticas. Pra mim, não funciona muito bem — o excesso me deixa confuso e atrapalha acompanhar a história... mas talvez seja só uma coisa comigo.

Outra coisa que percebi é que tem personagens demais. Sério, achei muito excessivo. Flynne, moradora de 2030, tem uma mãe doente, um irmão ex-combatente de guerra, que tem um amigo, que tem outro amigo, que tem mais uma galera conhecida. Cada um deles tem um nome, veste uma roupa, faz uma coisa, mas em grande parte nenhum desses personagens contribui para nada na história. Em 2100 não melhora muito. Netherton e a inspetora Lowbeer interagem com um oligarca russo e seus empregados... gente demais, nomes demais, enfim...

Eu levei pouco mais de dois meses pra ler o livro: isso aconteceu, eu acredito, porque a leitura foi uma montanha-russa, alternando trechos bons e interessantes com trechos que achei longos demais, desnecessários e chatos, não agregando à trama.

Não posso dizer que adorei o livro, longe disso, aliás. Mas ainda quero ler a série Neuromancer, que entendo que é escrita de outra maneira. Alguns dizem que William Gibson é um autor que provoca amor ou ódio. Talvez ao ler Neuromancer, em algum momento futuro — pois depois desse livro preciso dar algum descanso ao meu cérebro — eu tenha mais condições de dizer de que lado dessa relação eu estou.

#lido #livros