Eu tenho essa vontade de escrever
Recentemente me peguei pensando sobre escrever. Não o escrever como faço nesse site, quando componho uma postagem de blog. Nem mesmo o escrever no sentido de compartilhar um artigo do meu jardim digital publicamente. É algo muito mais antigo. Algo que remonta à minha infância.
Engraçado que eu não consiga me lembrar exatamente quantos anos eu tinha — na minha cabeça eram 14, e eu estava na oitava série. Mas às vezes acho que foi na quarta série, ainda mais cedo portanto. De qualquer maneira, uma coisa era a mesma nesses dois períodos: a folha pautada com espaço no cabeçalho, ao lado do logotipo da escola, para colocar o nome completo, série, número da chamada. Essas folhas eram impressas em uma gráfica na própria escola, e elas tinham pautas e letras marrons (ou sou eu quem se lembra delas assim, mas isso não é o mais importante).
Acontece que eu estava fazendo uma prova de Língua Portuguesa, ou de Redação. E tinha uma daquelas questões que pedia que eu escrevesse um texto. Uma redação. O tema era livre. E junto dessa solicitação vinha um pedido, temido por muitos amigos que estudavam comigo na mesma sala naquela época, mas nunca por mim: a quantidade mínima de palavras.
Nunca me atentei a esse tipo de coisa, provavelmente porque eu sempre tive mais palavras pra colocar no papel do que a quantidade mínima. Eu gosto de pensar que sou uma pessoa criativa e que tenho bastante imaginação. Não que eu nunca tenha tido alguma dificuldade pra escrever, ou tenha passado por um bloqueio, um dia menos inspirado. Afinql, isso acontece com todo mundo e nas melhores famílias.
Voltando à questão da redação, me pus a escrever. Peço logo desculpas porque o tema era livre, tão livre, que há anos se libertou, bateu asas e voou: de maneira que não me lembro mais sobre o que escrevi. Mas me lembro das duas coisas que são chave para o que estou te contando: primeiro, que para escrever minha redação eu tinha uma folha pautada em marrom, tamanho A4 (ou era ofício?), frente e verso. Que eu usei inteira, frente e verso. Daí, como ainda tinha história pra contar (e tempo pra fazer a redação), fui na mesa da professora e pedi outra folha pautada frente e verso vazia. E enchi ela também.
Então pedi outra folha: mas naquela altura o tempo pra fazer a prova já estava acabando, e eu, sabendo disso — e é isso que nunca me saiu da memória —, terminei minha história dizendo "melhor eu ir parando por aqui, porque senão vou acabar escrevendo um livro". Essa frase nunca me saiu da cabeça.
Naquele dia — na oitava série, quarta série, sei lá —, entreguei a redação. Como acontecia naquela época, a professora levou pra casa, corrigiu, e depois de alguns dias me devolveu. E o interessante foi reparar não na nota que eu tirei, que é outra coisa que eu não me lembro, mas na mensagem que ela escreveu ao lado da última frase da minha redação: "escreve mesmo!"
Todo mundo tem professores que influenciam, de uma forma ou de outra, o que acontece na carreira. Pelo menos é o que eu acredito. E essa frase me acompanhou durante muito tempo. Muito mesmo. Até que cerca de um mês atrás, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, não importa, me passou uma ideia pela cabeça. E eu comecei a escrever ficção. Anos depois, aquela frase finalmente me deu um impulso que eu comecei a traduzir em palavras.
A diferença disso que eu comecei a escrever pra o que eu costumo publicar neste site, é que a minha ficção não está pronta para os olhos do público. Por maior ou menor que este público seja. Tenho um amigo que considero um orientador, que me disse que a primeira pessoa pra quem a gente escreve é a gente mesmo. Pois bem. Estou nesse ponto, então: por agora, sou meu próprio público. E está ótimo.
Dizem que o jornalista e poeta cubano José Martí teria dito:
“Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro: três coisas que todo homem deve fazer durante a vida.”
Ao longo dos anos, conforme eu lembrava (ou nunca esquecia) da frase escrita à caneta pela minha professora no final da minha redação, eu meio que sempre levei essa parte do "escrever um livro" literalmente, embora eu saiba que essa parte representa muito mais o registro de ideias, experiências e de conhecimento (alô site, alô blog, alô, jardim digital!).
Aliás, devo dizer que essa citação, que na verdade não se sabe com certeza se realmente veio de Martí, junto com o feedback da minha professora, além de outras várias coisas, me tornaram um ávido leitor, uma pessoa mega curiosa e um lifelong learner.
Mas também por isso eu carrego, eu tenho comigo essa vontade de escrever. E a ideia da ficção que eu tive já se transformou. Virou outra. E mais uma. E mais outra. Tenho, nesse momento, três ideias distintas, e tenho trabalhado,'conforme posso, conforme dá, em cada uma delas.
E quem sabe um dia eu não volto aqui e conto pra você que pelo menos uma dessas ideias de fato se transformou num livro?