Contra o feiticeiro
Você, sendo ou não pai ou mãe, alguma vez ja dever ter presenciado um daqueles ataques de birra de uma criança, que se joga no chão e começa a chorar e gritar, 99% das vezes porque um adulto de sua convivência está negando fazer a sua vontade: nada de ficar mais tempo, nada de comer doce, nada de comprar aquele brinquedo agora.
Mas já imaginou se, hipoteticamente, essa criança, durante sua birra, sacasse um celular e começasse a transmitir uma live em rede social, acusando seu adulto de ser alguém que não tem empatia, ou que não liga para os sentimentos do próprio filho? Absurdo, né? Impensável, certo?
Certo?
A internet é uma faca de dois gumes. Por um lado, graças a ela, nunca tivemos acesso a tanta informação útil que seria complicado de se obter há apenas duas décadas atrás. Mas a internet nos trouxe as redes sociais, que, no mínimo, têm uma utilidade ambígua.
As redes sociais nos tornaram especialistas em formar opinião sobre todos e sobre tudo, o tempo todo, a qualquer momento, e sobretudo a respeito do que vemos mas não temos mais detalhes a respeito. Somos experts em tudo. A internet em seu início prometeu aproximar pessoas, mas as redes sociais têm sido o instrumento para que a distância entre nós se amplie cada vez mais.
Jennifer Castro, uma administradora de empresas mineira, residente em Belo Horizonte, era apenas uma pessoa comum até essa semana. No entanto, tendo comprado um assento à janela de um voo entre a capital carioca e a capital mineira, virou assunto nas redes sociais porque se recusou a ceder seu lugar a uma criança que fazia birra porque queria se sentar à janela. Virou assunto porque disse não, e porque a mãe da criança em questão sacou seu celular e gravou um vídeo, postado no TikTok, hostilizando-a enquanto dizia que lhe faltava empatia, que não lhe custava nada trocar de lugar, que ela era desalmada, e por aí vai.
"E essa, gente, é a desalmada da minha mãe, incapaz de sentir empatia por mim, que só queria um carrinho novo..."
O celular se tornou uma arma. Que você saca e usa como forma de intimidação sempre que começa a filmar alguém por um motivo que a você parece justo, mas sem olhar o todo.
Jennifer disse ter se sentido constrangida com o vídeo gravado, sem sua autorização (IstoÉ). E aqui entra, novamente, o problema das redes sociais, que poderiam ser o palco de grandes revoluções culturais, mas que hoje são apenas reality show barato. Experts instantâneos se polarizaram, tanto defendendo quanto atacando Jennifer pelo seu posicionamento, mas também inferindo coisas como posicionamento político a partir de um fato isolado, o que para mim é absurdo e descabido. Jennifer disse que está se sentindo com medo, e que se viu na necessidade de parar de seguir algumas contas por motivos de segurança (CNN Brasil).
Mas o feitiço virou contra o feiticeiro. A intenção de quem postou era certamente a de mobilizar pessoas contra a atitude de Jennifer, e o que ocorreu foi o contrário: ela acabou ganhando cerca de 1,5 milhão de seguidores em suas redes sociais com o episódio.
Além disso, Aline, mãe da criança, acabou se desculpando com Jennifer pela exposição. Segundo disse, não foi ela quem fez o vídeo, pois estava ocupada tentando conter o que chamou de “birra ridícula” do menino (F5, Folha). O celular que fez o vídeo e que foi usado como verdadeira arma, felizmente deu um tiro que saiu pela culatra.
Não é de hoje que cenas de tribunal da internet, e a forma como as pessoas se expressam publicamente nas redes sociais, muitas vezes de forma contundente, agindo como juízes, andam sem limites.
Uma criança birrenta que filme um adulto e poste na internet porque foi contrariada é, obviamente, ficção vinda da minha cabeça — ao menos, assim espero. Os pais têm que impôr limites, e ensinar as crianças que elas não podem ter tudo que querem, sempre que querem.
Mas quem vai educar os usuários birrentos de redes sociais? Aqueles que querem ameaçar com seu celular, postando um lado apenas da história, aqueles que enxergam, em TikToks e Instagrams, palcos onde devem atuar ao invés de simplesmente locais para se comunicarem?